“A minha causa é que nenhum alimento seja desperdiçado”

Alcione Pereira, CEO da Connecting Food, conta como uma revista e uma palestra motivaram sua transição de carreira para o empreendedorismo social

Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre a busca por um propósito de vida —e a dificuldade de encontrá-lo. Pode ser que ele já esteja incrustado na gente há muito tempo e só precise de um empurrãozinho para vir à tona e ser o ponto de partida para uma revolução pessoal. Foi assim com Alcione Pereira, CEO da Connecting Food.

Antes de comandar esse negócio social que, entre outras coisas, coordena a redistribuição de alimentos doados no Movimento Todos à Mesa (do qual o iFood faz parte), Alcione fez longa carreira em empresas bem tradicionais. 

Formada em Engenharia de Alimentos, passou 15 anos ocupando cadeiras em áreas relacionadas à produção alimentícia, logística e supply chain, planejamento e tecnologia da informação em diferentes organizações. Mas, nos últimos anos de sua trajetória corporativa, Alcione começou a se questionar se ainda se encaixava nesse mundo.

“Eu não sabia exatamente o quê, nem como, mas sempre pensava que tinha alguma missão um pouco mais ampla, que tinha vindo ao mundo fazer algo diferente”, conta.

A vontade de fazer esse “algo diferente”, acompanha Alcione desde a adolescência, mas acabou ficando guardada por conta dos rumos que sua vida tomou. Aos 14 anos, leu em uma revista a história da empresária britânica Anita Roddick e sua atuação à frente da empresa de cosméticos The Body Shop. Roddick, uma das precursoras do ativismo ambiental e de causas sociais, estava no Brasil para conhecer a Amazônia.

“Eu fiquei pensando: ‘nossa, existe uma empresa com uma preocupação social? Isso explodiu minha cabeça”, recorda Alcione. “Foi então que me toquei que uma empresa poderia gerar um impacto positivo.  E isso veio comigo a vida toda. Li e reli a biografia dela, que até hoje está na minha cabeceira, e dei esse livro de presente para muita gente.”

O propósito, então, esteve ali desde sempre. Além disso, Alcione já estava com vontade de fazer algo diferente e começava a se preparar para uma transição de carreira. Só faltava encontrar o “o quê” para formar a tempestade perfeita. 

Encontrando a sua causa

A resposta veio, em 2015, quando a então executiva começava a se preparar para deixar a vida corporativa como a conhecia e passou a frequentar eventos ligados à área de sustentabilidade. “Assisti a algumas palestras, e uma delas foi sobre desperdício de alimentos. Foi quando descobri um fato que eu desconhecia e fiquei chocada: um terço dos alimentos produzidos eram jogados no lixo!”, conta. Foi o gatilho para a virada de carreira.

“Anita Roddick tinha a beleza como parte de sua causa. No momento em que cruzei com o desperdício de alimentos, eu achei a minha: quero que nenhum alimento bom para o consumo humano seja desperdiçado no mundo. No dia em que todos os possíveis doadores de alimentos estiverem doando, poderei fazer outra coisa”, sentenciou.

No ano seguinte, a engenheira de alimentos participou do Social Good Brasil, um laboratório de inovação social que visa formar empreendedores sociais. Lá, teve a oportunidade de testar algumas soluções para combater o desperdício de alimentos e chegou à ideia que originou a Connecting Food: conectar quem tem alimentos em condição de consumo (a indústria alimentícia) com quem pode recebê-los para direcionar às pessoas em situação de vulnerabilidade social (organizações da sociedade civil).

“Eu fiz benchmarking e vi empresas no exterior que já faziam algo parecido. Não inventei a roda, apenas olhei para o que já era feito e tentei adaptar para o Brasil”, explica. 

A ideia ficou em segundo lugar no festival promovido pela instituição e, assim, conseguiu o primeiro investimento. Foi o primeiro passo para que a ideia de um negócio de impacto social, desejado desde a adolescência, finalmente virasse realidade.

“Eu acho que foi uma das melhores decisões da minha vida”, avalia. Só tenho a agradecer por ter tido a coragem de acreditar no vazio, porque eu realmente não sabia o que me esperava. Mas acho que deu muito certo. Tenho muito orgulho do que faço e gosto de pensar que estou fazendo uma coisa muito positiva com a minha vida, que impacta a vida de milhares de pessoas todos os dias.”

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